LinguagensSemântica, Ambiguidade e IroniaDifícil

Questão de Semântica, Ambiguidade e Ironia — ENEM

Uma página de humor nas redes sociais publicou o seguinte comentário em resposta a uma notícia sobre um projeto de lei que propunha reduzir o orçamento destinado a bibliotecas públicas e programas de incentivo à leitura no município: 'Ótima notícia! Menos leitura, menos pensamento crítico. Assim fica mais fácil para todo mundo. Parabéns aos idealizadores da proposta, que claramente prezam pelo desenvolvimento intelectual da população.' A postagem foi amplamente compartilhada e gerou debates. Parte dos seguidores entendeu, de imediato, que o comentário não estava elogiando o projeto de lei: estava criticando com veemência a decisão ao fingir aprová-la. Outros, porém, pediram uma explicação, pois não perceberam a crítica. Um professor de linguagem, ao comentar o episódio, explicou que a eficácia do texto dependia de o leitor perceber o descompasso entre as palavras elogiosas e o contexto da notícia, que tornava os elogios impossíveis de serem tomados como sinceros. Considerando o funcionamento desse comentário nas redes sociais, o recurso que estrutura toda a crítica ao projeto de lei é a
Aironia, pois o comentário simula aprovação para, ao revelar o absurdo da proposta, criticá-la.
Beufemismo, pois o comentário suaviza a crítica ao projeto para não ofender seus defensores.
Cpolissemia, pois a palavra 'desenvolvimento' admite sentidos opostos no contexto do comentário.
Dpersonificação, pois o comentário atribui intenções e pensamentos aos idealizadores do projeto.
Ehipérbole, pois o comentário exagera nas consequências da redução do orçamento de leitura.

Gabarito comentado

A ironia diz o contrário do que se pensa para criticar, questionar ou provocar humor, exigindo que o leitor perceba o descompasso entre as palavras e o contexto. Nas redes sociais, ela é frequentemente usada em comentários políticos e culturais. Interpretá-la demanda atenção ao tom, ao contexto da notícia e às pistas que tornam o sentido literal impossível ou absurdo.

Resolução passo a passo

O comentário usa palavras de elogio — 'ótima notícia', 'parabéns', 'claramente prezam pelo desenvolvimento intelectual' — para criticar uma medida que, de fato, reduz o investimento em leitura e cultura. Ao afirmar o contrário do que realmente pensa, usando o absurdo da situação para revelar a crítica, o autor emprega a ironia, recurso em que o sentido pretendido é o oposto do sentido literal das palavras. O efeito depende de o leitor reconhecer o contexto e perceber que o elogio é impossível de ser sincero. O eufemismo suavizaria o impacto de algo penoso, enquanto o comentário intensifica a crítica por meio do fingimento de elogio. A polissemia dependeria de uma palavra com dois sentidos ativos disputando a leitura, e o mecanismo do texto é o choque entre elogio e realidade, não a ambiguidade de uma palavra. A personificação atribuiria traços não humanos a seres inanimados, e os idealizadores são pessoas; a crítica não repousa sobre esse recurso. A hipérbole seria o exagero de uma ideia, ao passo que aqui o efeito central é a inversão do sentido, não a amplificação. Portanto, o recurso estruturante é a ironia.

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