LinguagensSemântica, Ambiguidade e IroniaDifícil

Questão de Semântica, Ambiguidade e Ironia — ENEM

Num debate sobre sabedoria popular, um participante citou o provérbio 'Cão que ladra não morde' para descrever um colega que vivia fazendo ameaças, mas nunca as cumpria. Outro participante, contudo, lembrou que o ditado não trata realmente de cachorros: ninguém o usa para falar sobre o comportamento de animais. A frase emprega a imagem do cão barulhento para representar, de modo figurado, a pessoa que faz muito alarde, grita e intimida, mas que, na hora decisiva, não passa à ação. O provérbio condensa, em poucas palavras e numa cena concreta, uma observação geral sobre o comportamento humano, transferindo características de um animal para a conduta das pessoas. O sentido literal, sobre cães, serve apenas de ponte para o sentido pretendido, que é moral e abstrato. Considerando o funcionamento desse provérbio, o que sustenta a sua eficácia comunicativa é o emprego
Ado sentido conotativo, em que a imagem do cão representa figuradamente um tipo de pessoa.
Bdo sentido denotativo, em que a frase descreve, ao pé da letra, o comportamento de cães.
Cda ambiguidade estrutural, em que a ordem das palavras gera duas leituras sintáticas.
Ddo eufemismo, em que se suaviza uma crítica direta ao comportamento do colega citado.
Eda metalinguagem, em que a frase explica o próprio código linguístico que utiliza.

Gabarito comentado

Provérbios funcionam pelo sentido conotativo: partem de uma cena concreta e literal para expressar, de forma figurada e generalizante, uma lição sobre o comportamento humano. Compreendê-los exige ultrapassar o significado literal das palavras e captar a transferência de sentido que a tradição cultural consagrou.

Resolução passo a passo

O provérbio 'Cão que ladra não morde' não fala literalmente de cachorros: a imagem do animal barulhento representa, de modo figurado, a pessoa que ameaça muito e não age. Esse deslocamento do sentido literal para um sentido moral e abstrato caracteriza o emprego conotativo da linguagem, próprio dos provérbios. O sentido denotativo seria a leitura ao pé da letra, sobre o comportamento de cães, justamente o que os falantes não pretendem. A ambiguidade estrutural dependeria de duas leituras sintáticas, e o ditado tem sentido figurado único e estável. O eufemismo suavizaria uma crítica, enquanto o provérbio descreve um tipo humano sem amenizar nada. A metalinguagem ocorreria se a frase explicasse o próprio código, o que não acontece. Por isso, o que sustenta o provérbio é o sentido conotativo.

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