LinguagensVariação Linguística (Histórica, Social, Regional e Estilística)Difícil

Questão de Variação Linguística (Histórica, Social, Regional e Estilística) — ENEM

Uma canção popular brasileira constrói sua força justamente ao incorporar a fala do interior. Em versos que evocam a roça, o eu lírico canta algo como: 'Cê vai s'imbora, mas eu fico aqui na lida / Com meu chapéu de paia e a viola na mão / Ninguém me ensinô a falá bonito, não / Mas no meu cantá cabe a vida intera.' A letra usa formas como 'cê', 's'imbora', 'paia', 'ensinô' e 'falá', marcas da fala caipira, e ainda comenta, com orgulho, que o eu lírico não aprendeu a 'falá bonito'. Em vez de esconder essas marcas, a canção as exibe como símbolo de identidade e de pertencimento, dando voz e valor a uma variedade muitas vezes estigmatizada. Considerando o modo como a letra trabalha a variação linguística, o que melhor descreve sua intenção?
ACriticar os falantes do interior por não dominarem a norma-padrão da língua portuguesa.
BValorizar a variedade caipira como marca de identidade, contrapondo-se ao preconceito linguístico.
CDemonstrar que a fala do interior é um português ultrapassado, preso ao passado histórico.
DCorrigir as formas 'paia' e 'falá', ensinando ao público a maneira certa de pronunciá-las.
EProvar que apenas a variedade formal escrita é capaz de expressar emoções verdadeiras.

Gabarito comentado

Obras populares costumam usar variedades estigmatizadas como recurso estético e político, afirmando a identidade de quem fala assim. Esse gesto contraria o preconceito linguístico e lembra que toda variedade pode ser veículo de arte e emoção. Interpretar a canção pede perceber a intenção de valorizar, e não de corrigir, a fala retratada.

Resolução passo a passo

A canção incorpora formas da fala caipira, como 'cê', 'paia' e 'falá', e, em vez de escondê-las, exibe-as com orgulho, declarando que o eu lírico não aprendeu a 'falá bonito', mas que em seu canto cabe a vida inteira. Ao dar voz e valor a uma variedade estigmatizada, a letra a transforma em marca de identidade e se contrapõe ao preconceito linguístico. Não há crítica aos falantes do interior, já que o tom é de afirmação, diferentemente do que sugere a primeira opção. A letra não trata a fala como português ultrapassado, e sim como expressão viva e atual. Não há intenção de corrigir 'paia' ou 'falá', uma vez que essas formas são usadas como recurso poético e identitário. Tampouco se defende que só a variedade formal expresse emoções, pois é justamente a fala popular que carrega o sentimento. Logo, a intenção é valorizar a variedade caipira.

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