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Questão de Literatura Contemporânea e Afro-Brasileira — ENEM

Na literatura afro-brasileira contemporânea, o corpo negro frequentemente emerge como lugar de disputa simbólica: ao mesmo tempo que foi historicamente marcado pela violência, pelo estereótipo e pela subalternidade, ele é reapropriado pelos autores como símbolo de beleza, resistência e ancestralidade. Autoras como Conceição Evaristo e Cidinha da Silva constroem personagens cujo corpo é narrado de dentro, pela própria experiência, e não de fora, pelo olhar externo que desumaniza. Para aprofundar essa discussão, considere dois trechos compostos nessa perspectiva: 'Levei anos para aprender que meu cabelo não era problema — era mapa, era raiz, era recado para quem não quisesse entender' e 'Meu corpo não é o que os outros viram; é o que eu decidi contar, com as palavras que escolhi.' Os dois trechos partem de uma mesma operação sobre o corpo. Considerando o debate sobre representatividade e os dois trechos citados, qual é a operação literária comum que os une?
AA aceitação passiva das representações impostas de fora como base para a construção da identidade.
BA recusa em mencionar o corpo para evitar polêmicas e manter o texto dentro de um padrão neutro.
CA reapropriação do próprio corpo como espaço de afirmação identitária, contrariando a narrativa desumanizadora do olhar externo.
DA valorização do ponto de vista externo como mais legítimo para narrar a experiência negra.
EA defesa de que o corpo negro só pode ser compreendido por meio de estudos científicos objetivos.

Gabarito comentado

A literatura afro-brasileira contemporânea frequentemente transforma o corpo — historicamente objeto do olhar e da violência externos — em sujeito da própria narrativa. Reconhecer essa reapropriação simbólica como operação literária é uma habilidade crítica avançada, necessária para interpretar textos de autoras como Conceição Evaristo e Cidinha da Silva.

Resolução passo a passo

Ambos os trechos realizam uma reapropriação do corpo: no primeiro, o cabelo que 'outros viram como problema' é ressignificado como 'mapa, raiz e recado'; no segundo, o corpo não é o que os outros viram, mas 'o que eu decidi contar, com as palavras que escolhi'. Essa operação é a reapropriação do próprio corpo como espaço de afirmação identitária, contrariando a narrativa desumanizadora do olhar externo — alternativa C. A aceitação passiva das representações externas seria o movimento oposto ao que os textos fazem; recusar mencionar o corpo contradiz o protagonismo corporal presente nos dois trechos; valorizar o ponto de vista externo como mais legítimo inverte a lógica de autonomia narrativa que os textos propõem; e a defesa de estudos científicos objetivos não tem relação com a escrita literária em primeira pessoa. Assim, a operação literária comum é a reapropriação afirmativa do próprio corpo como afirmação de identidade frente ao olhar externo que desumaniza.

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