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Questão de Literatura Contemporânea e Afro-Brasileira — ENEM

Boa parte da literatura afro-brasileira e periférica contemporânea incorpora marcas da oralidade: ritmo de fala, repetições, provérbios, referências a tradições orais herdadas de matriz africana e a presença de um narrador que parece conversar com quem lê. Cidinha da Silva, por exemplo, é conhecida por crônicas e contos que dialogam com a cultura negra e com a fala viva das ruas. Para ilustrar esse recurso, considere um trecho composto nesse estilo: 'Escuta, que vou contar como quem fia: a história não cabe em linha reta, ela vai e volta, repete pra não esquecer, do jeito que minha avó dizia, do jeito que o tambor ainda diz.' O texto reproduz o tom da conversa e evoca a transmissão oral entre gerações. Considerando esse trecho, qual é o efeito de sentido produzido pela incorporação da oralidade na escrita?
AAproxima o texto da tradição oral e valoriza a transmissão de saberes entre gerações.
BTorna o texto incompreensível por abandonar qualquer referência cultural.
CIndica que o autor desconhece as normas básicas da língua portuguesa.
DElimina a presença do narrador, deixando o texto totalmente impessoal.
EReduz a literatura a um simples manual técnico de instruções.

Gabarito comentado

A oralidade na literatura afro-brasileira e periférica não é descuido, e sim recurso estético que conecta o texto às tradições orais e à memória coletiva. Compreender que marcas de fala produzem sentido cultural evita confundir essa escolha com erro gramatical.

Resolução passo a passo

O trecho imita o ritmo da fala ('Escuta, que vou contar como quem fia'), usa repetição ('repete pra não esquecer') e evoca a avó e o tambor, ligando a narrativa à transmissão oral entre gerações e à matriz africana. Esse uso da oralidade aproxima o texto da tradição oral e valoriza a passagem de saberes de uma geração a outra. O texto não fica incompreensível, já que as referências culturais o tornam mais rico, não ausentes; a oralidade é escolha estética consciente, e não desconhecimento da norma; o narrador não é eliminado, ao contrário, ele se faz muito presente ao conversar com o leitor; e a literatura não vira manual técnico, pois mantém função expressiva e afetiva. Logo, o efeito é aproximar o texto da tradição oral e valorizar a transmissão de saberes.

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