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Questão de Literatura Contemporânea e Afro-Brasileira — ENEM

Na literatura periférica urbana, o bairro onde o autor nasceu e cresceu não é apenas cenário: é sujeito da narrativa, personagem coletivo que carrega história, contradições e afetos. Escritores como Ferréz, em 'Capão Pecado', e outros autores de saraus paulistanos constroem textos em que o território periférico deixa de ser sinônimo de falta e passa a ser símbolo de pertencimento e resistência cultural. Considere um trecho composto nesse estilo: 'Nasci nessa rua sem nome oficial, / mas todo mundo aqui sabe onde fica. / A placa faltou, / o asfalto tardou, / mas a história que o bairro carrega / não cabe em nenhum mapa da cidade. / Cada muro pichado é um grito gravado / que a chuva não apaga.' O texto usa imagens do bairro — a falta de placa, o asfalto que não veio, o muro pichado — para construir um sentido cultural específico. Considerando esse trecho, de que modo o território periférico é apresentado na literatura em questão?
AComo lugar de total ausência cultural, onde não há nada que mereça ser narrado ou preservado.
BComo espaço de pertencimento e memória coletiva, cuja história resiste à invisibilidade imposta pela cidade.
CComo espaço idílico e harmônico, sem conflitos ou marcas de desigualdade social.
DComo território que deve ser abandonado pelos moradores em busca de condições melhores.
EComo cenário neutro e intercambiável, sem qualquer identidade cultural própria.

Gabarito comentado

Na literatura periférica, o território não é mero pano de fundo: ele é carregado de significado cultural e político. O bairro aparece como espaço de identidade e resistência, revertendo a imagem de falta ou violência frequentemente associada à periferia por olhares externos. Essa ressignificação do território é uma das marcas centrais dessa produção.

Resolução passo a passo

O trecho descreve um bairro sem placa oficial e com asfalto tardio, mas cuja 'história não cabe em nenhum mapa' e cujos 'muros pichados são gritos gravados que a chuva não apaga'. Esses elementos constroem o território como espaço de pertencimento e memória coletiva que resiste à invisibilidade imposta pela cidade — alternativa B. A ausência cultural total seria o oposto do que o texto sugere, pois o bairro é cheio de história; o idílio sem conflitos não corresponde ao retrato de carências (sem placa, sem asfalto) presente no poema; o abandono do território contradiz a celebração do pertencimento; e a neutralidade intercambiável vai contra a singularidade afetiva e histórica construída no texto. Assim, o território é apresentado como espaço de pertencimento e memória coletiva em resistência.

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