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Questão de Literatura Contemporânea e Afro-Brasileira — ENEM

O silêncio é uma categoria central nos estudos culturais e nas discussões sobre literatura testemunhal afro-brasileira. Para autoras como Conceição Evaristo e Carolina Maria de Jesus, escrever é um ato que rompe um silêncio imposto: o silêncio sobre a fome, sobre a violência, sobre a história das mulheres negras que o cânone literário não registrou. Esse silêncio não é vazio — é resultado de relações de poder que determinaram quem pode falar e sobre quem se fala. A escritora Lélia González, teórica importante nesse debate sobre identidade e cultura, afirmou que 'o silêncio é a voz dos vencidos transformada em ausência'. Para aprofundar a análise, considere um trecho literário composto nessa perspectiva: 'Não me calei por falta de palavras. Calei porque me ensinaram que minha voz não cabia naquele espaço. Mas agora escrevo, e cada linha é a prova de que o silêncio foi uma escolha deles, não minha.' Considerando o conjunto do debate e o trecho apresentado, de que modo o silêncio e a escrita funcionam como categorias literárias opostas nessa perspectiva?
AO silêncio representa uma ausência natural da cultura oral, enquanto a escrita é apenas uma ferramenta técnica neutra.
BO silêncio é produzido por relações de poder que excluem determinadas vozes, enquanto a escrita aparece como ato de ruptura e afirmação dessa voz silenciada.
CO silêncio é voluntário e a escrita é obrigatória, uma vez que toda pessoa possui o mesmo acesso aos meios de expressão literária.
DO silêncio representa a maturidade estética do artista, enquanto a escrita é apenas o estágio inicial do processo criativo.
EO silêncio e a escrita são sinônimos na tradição afro-brasileira, pois ambos expressam a mesma relação com a memória coletiva.

Gabarito comentado

Na literatura testemunhal e afro-brasileira, o silêncio não é ausência neutra: é categoria política que denuncia quem foi calado e por quê. A escrita, por sua vez, é gesto de ruptura com esse silêncio imposto. Compreender essa tensão entre silêncio e voz é fundamental para a leitura crítica de autoras como Carolina Maria de Jesus e Conceição Evaristo.

Resolução passo a passo

O trecho afirma explicitamente que o eu 'não se calou por falta de palavras', mas porque 'ensinaram que sua voz não cabia naquele espaço', e que a escrita é 'prova de que o silêncio foi uma escolha deles, não minha'. Isso evidencia que o silêncio foi imposto por relações de poder que excluem determinadas vozes, enquanto a escrita funciona como ato de ruptura e afirmação da voz silenciada — o que corresponde à alternativa B. O silêncio como ausência natural da oralidade contradiz o trecho, que o descreve como imposição; dizer que é voluntário e que todos têm o mesmo acesso nega a desigualdade que o texto e o debate apontam; o silêncio como maturidade estética não tem relação com a discussão de poder; e tratá-los como sinônimos inverte a oposição constitutiva que os dois termos têm nessa tradição. Logo, a alternativa correta é a B.

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