Gabarito comentado
Representatividade em literatura é uma questão de poder narrativo: importa quem escreve e a partir de qual lugar. A literatura afro-brasileira contemporânea desloca o sujeito negro de objeto representado para autor de sua própria voz. Reconhecer esse deslocamento é uma leitura crítica fundamental.
Resolução passo a passo
O trecho contrapõe o tempo em que o eu era 'pintado de longe', como 'coadjuvante na história alheia', ao momento em que ele mesmo 'segura a caneta', com tinta que carrega o sangue de sua gente. Está em jogo, portanto, a passagem da condição de objeto representado por outros à de sujeito que narra a própria história, em sintonia com o debate sobre protagonismo e com a fala de Conceição Evaristo sobre 'borrar a escrita serena de quem nos escreveu'. A ideia de que só estrangeiros deveriam escrever inverte o sentido do texto; a recusa em escrever contradiz o gesto de pegar a caneta; apagar a identidade do autor opõe-se à afirmação do 'sangue da minha gente'; e manter personagens negras como secundárias é exatamente o que o eu rejeita. Assim, o que está em jogo é o protagonismo de quem antes era apenas representado.
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