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Questão de Literatura Contemporânea e Afro-Brasileira — ENEM

Um debate central na literatura afro-brasileira contemporânea diz respeito ao protagonismo e à representatividade: durante muito tempo, personagens negras foram criadas e descritas por autores brancos, ocupando papéis estereotipados e secundários. Autoras e autores negros reivindicam o direito de narrar a si mesmos, deslocando-se da posição de objeto representado para a de sujeito que escreve. Conceição Evaristo sintetiza isso ao falar em 'borrar a escrita serena de quem nos escreveu'. Para ilustrar a questão, considere um trecho composto nesse espírito: 'Por séculos me pintaram de longe, sempre coadjuvante na história alheia. Agora seguro eu a caneta, e a tinta tem o sangue da minha gente.' O eu que narra contrapõe ser descrito por outros a escrever por si mesmo, reivindicando o controle sobre a própria imagem na literatura. A partir da leitura do trecho e do debate apresentado, o que está em jogo na fala do eu que narra?
AA passagem da condição de objeto representado por outros à de sujeito que narra a própria história.
BA defesa de que apenas autores estrangeiros deveriam escrever sobre o Brasil.
CA recusa em escrever para preservar o silêncio das gerações anteriores.
DA ideia de que a literatura deve evitar qualquer marca de identidade do autor.
EA afirmação de que personagens negras devem permanecer em papéis secundários.

Gabarito comentado

Representatividade em literatura é uma questão de poder narrativo: importa quem escreve e a partir de qual lugar. A literatura afro-brasileira contemporânea desloca o sujeito negro de objeto representado para autor de sua própria voz. Reconhecer esse deslocamento é uma leitura crítica fundamental.

Resolução passo a passo

O trecho contrapõe o tempo em que o eu era 'pintado de longe', como 'coadjuvante na história alheia', ao momento em que ele mesmo 'segura a caneta', com tinta que carrega o sangue de sua gente. Está em jogo, portanto, a passagem da condição de objeto representado por outros à de sujeito que narra a própria história, em sintonia com o debate sobre protagonismo e com a fala de Conceição Evaristo sobre 'borrar a escrita serena de quem nos escreveu'. A ideia de que só estrangeiros deveriam escrever inverte o sentido do texto; a recusa em escrever contradiz o gesto de pegar a caneta; apagar a identidade do autor opõe-se à afirmação do 'sangue da minha gente'; e manter personagens negras como secundárias é exatamente o que o eu rejeita. Assim, o que está em jogo é o protagonismo de quem antes era apenas representado.

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